Em painel do evento CONAREC 2021, porta-vozes das empresas NotCo, Fruta Imperfeita, Exchange do Bem e Conta Black revelam os principais desafios da jornada

por João Ortega

Empreendedores enxergam oportunidades ao se depararem com problemas. Quando estas dores vão além do mercado e prejudicam a sociedade e o meio-ambiente, as soluções deixam de ser somente uma forma de gerar lucro e tornam-se ferramentas de transformação. Hoje, vivemos um momento de despertar de uma nova consciência, em que cada vez mais empreendimentos visam o viés de impacto socioambiental positivo. 

Esse foi o tema do painel “Uma Lição Indispensável: A Construção de uma Nova Consciência”, que ocorreu durante o evento CONAREC 2021, que acontece nos dias 10 e 11 de novembro em São Paulo. Participaram da discussão Eduardo Mariano, fundador da Exchange do Bem; Roberto Matsuda, fundador da Fruta Imperfeita; Simone Murata, diretora de marketing da NotCo; e Sérgio All, fundador da Conta Black. A mediação foi realizada por Christina Carvalho Pinto, sócia da Hollun Consultoria. 

“Precisamos discutir a velocidade e voracidade dessa nova forma de fazer negócios”, provoca a mediadora, referindo-se ao modelo de crescimento escalável e ágil das startups. Por vezes, esta busca incessante por escala acaba deixando um impacto negativo na sociedade. Na Fruta Imperfeita, no entanto, a prioridade é outra. 

Fruta Imperfeita

A empresa busca solucionar a questão do desperdício de frutas e legumes que não são compradas por terem uma estética que não está no padrão, embora sejam totalmente aptas ao consumo. Roberto Matsuda compra os alimentos “imperfeitos” de pequenos produtores e os entrega, em uma cesta variada, ao cliente final. 

“Todos os produtores com quem eu falei disseram que não conseguiam vender frutas e legumes por estarem fora do padrão estético. Comecei a estudar muito o universo do desperdício e quanto se perdia de alimentos e o impacto que isso gera no mundo”, afirma o empreendedor. Um estudo da UFSCAR mostra que das 140 milhões de toneladas de alimentos produzidas por ano no país, 26 milhões são jogados no lixo. 

Porém, Matsuda diz que seu modelo de negócio não se enquadra no perfil de serviço de delivery que vem crescendo de forma acelerada nos últimos anos. Isto porque ele trabalha com a sazonalidade dos produtos e busca reduzir o impacto ecológico da sua cadeia logística. “Fomos para um lado mais consciente, de otimização logística, de reduzir pegada de carbono, de um modelo que o consumidor não escolhe o produto. Vai contra toda a cartilha de e-commerce, porque se trata de um movimento de conscientização”, analisa. 

“Com o nosso objetivo de valorizar o pequeno produtor e por estar conectado com um público mais consciente em relação à sustentabilidade, acabamos vendendo produtos imperfeitos mais caros do que um produto perfeito no supermercado”, explica. “É um grande desafio de custo, mas queremos solucioná-lo com otimização logística, sem baixar o valor pago ao pequeno produtor.“Estou muito satisfeito com o caminho que escolhemos, faz muito sentido até hoje. Mas claro que não é um modelo tão escalável, perdemos oportunidades de negócios, por ser um movimento de conscientização”. 

NotCo

A chilena NotCo, por outro lado, já está mais alinhada ao modelo startup, tanto que já levantou US$ 360 milhões em investimento. A empresa desenvolve, com apoio de algoritmos de Inteligência Artificial e Machine Learning, alimentos a base de plantas que imitam os de origem animal. 

“A pecuária, hoje, apesar de tomar 80% do solo produtivo é responsável apenas por 12% das calorias que consumimos. Ou seja, há um descompasso entre os recursos usados e os benefícios”, destaca Simone Murata. Para a executiva, reduzir o custo dos produtos também é o principal desafio, e a questão de reduzir a pegada de carbono logística também entra no planejamento.

“No Brasil, um dos desafios é tributos. Há subsídios do governo para produtos que estão na cesta básica, que é constituída em parte por proteína animal. Isso acaba sendo uma barreira para alternativas à base de plantas, o que dificulta levar a jornada da sustentabilidade a um preço mais acessível”, explica a executiva. “Outra barreira é a cadeia de suprimentos, que é insuficiente, inclusive às vezes precisamos trazer produtos importados em uma escala pequena de navio. Esses desafios nos fazem pensar como hacker, pensar em como resolver os problemas de uma maneira diferente das empresas tradicionais”. 

Exchange do Bem

Eduardo Mariano é mais um empreendedor que precisa lidar com as emissões de transporte no negócio de impacto que fundou. A Exchange do Bem é uma empresa que fomenta o voluntariado, conectando projetos sociais no mundo inteiro com empresas e pessoas que queiram fazer a diferença. 

“Sabemos que viagens de avião causam um impacto ambiental bastante relevante, então a poluição é algo que estamos compensando”, revela o empreendedor. “Como trabalho com viagens, poderia falar que a pandemia foi o pior desafio. Mas houve barreiras ainda maiores. Até hoje, o maior desafio é entender a necessidade e a dor de cada projeto social. Porque não dá para sentir na pele aquilo que as pessoas sentem todos os dias”, pondera Eduardo.

A Exchange do Bem capacita voluntários e mensura os resultados de cada projeto, buscando aprimorar a metodologia e amplificar o impacto social positivo do negócio. Pessoalmente, o empreendedorismo com viés socioambiental já transformou sua trajetória. “Estava trabalhando no mercado financeiro, mas não tinha a ver com meu propósito”, recorda.

Conta Black

Quem decidiu empreender no mercado financeiro foi Sérgio All, que fundou uma fintech depois de não encontrar explicação por que teve crédito negado por um banco que não pelo único fato de ser negro. Ao estudar o mercado do afroempreendedorismo, percebeu que a grande lacuna era precisamente a falta de crédito. 

“Fiz um processo de imersão no universo afroempreendedor. Percebi que a população preta e parda do Brasil é majoritariamente empreendedora, formal ou não”, revela. “A Conta Black veio com o objetivo de ajudar a construir a jornada do empreendedor, e mostrar que o crédito não deve ser o inimigo”. 

Ao longo da jornada empreendedora, a viabilidade financeira continuou a ser uma barreira para Sérgio. “O maior desafio foi chegar para um possível investidor e mostrar que o nosso público-alvo era praticamente metade desbancarizado e metade sub bancarizado, mas que o negócio daria certo. E aí claro que não funcionou de primeira, e eu tive que colocar meus próprios recursos e abdicar de várias coisas na minha vida pessoal”, recorda. 

O esforço deu retorno e, hoje, a fintech soma mais de 18 mil clientes, que movimentam cerca de R$ 2 milhões a cada trimestre. O potencial, no entanto, é muito maior: segundo dados do Movimento Black Money, a comunidade negra movimenta cerca de R$ 1,7 trilhão por ano no Brasil.

Fonte: WHow

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